sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A morte do pai

Era manhã de um dia qualquer de um mês que não me lembro. Se não me falha a memória, era uma quarta feira chuvosa.
Eu estava no meio de uma aula de português da professora Lúcia, de quem tenho boas lembranças. Ela era daquelas professoras capazes de te fazer gostar das piores matérias, era bonita, sorridente e tratava dos assuntos mais árduos da apredizagem infantil com leveza e simplicidade. Eu adorava aquela aula.
Aos 8 anos de idade eu era uma menina frágil, muito magra, feinha e, certamente, não era a mais popular da escola. Tinha vergonha de tudo, tentava insitentemente misturar-me à paisagem e não chamar atenção, morreria se alguém me chamasse à lousa. E assim caminhava minha vida, quase anonimamente.
A certa altura da minha manhã, a corrdenadora Rosangela (era uma psicóloga muito intrometida, eu não gostava dela) interrompe a minha aula preferida e para minha surpresa e terror, chama pelo meu nome. Não bastasse o susto em ouvi-la também pediu para que eu levasse todo o meu material.
Lembro-me de ter guardado minhas tralhinhas com os olhos grudados no chão, eu sabia que todos estavam me observando e isso era insuportável para a minha timidez. Saí da sala confusa, sem saber o que pensar. Antes de atravessaar a porta voltei-me para trás e meus olhos desesperados encontraram o olhar da minha querida professora. Eu não saberia interpretar aquele olhar, talvez um misto de pena com dúvida, não sei. Caminhei para a sala da coordenadora intrometida como se tivesse duzentos quilos em cada perna, eu me arrastava por aquele corredor. Não sabia o que esperar, apenas imaginava que algo muito grave acontecera, mas o que?
Ao entrar naquele cubículo chamado coordenadoria, ela me disse num tom grave "vá para casa, sua mãe espera por você". Meu constrangimento não me permitiu perguntar o motivo, apenas abaixei a cabeça e fui embora da escola.
A essa altura do campeonato minha cabeça estava vazia de pensamentos e sentimentos, não sei explicar. Apenas não pensava em nada.
Minha casa era muito perto da escola, chequei rapidamente e ao abrir a porta de de cara com um tio que raramente nos visitava, fiquei feliz e aliviada, mas esse alívio durou o tempo de ampliar o olhar para o resto da sala e encontrar os rostos de minha mãe e irmã, inchados, lacrimosos, tristes. A felicidade inicial fora substituída por um sentimento de confusão e dúvida.
Meu tio pediu-me que sentasse no sofá, um sofá antigo com base de madeira e almofadas muito azuis. E deu-me a notícia com um sorriso nervoso nos lábios, imagino como deve ter sido difícil para ele naquele momento encarar uma criança de 8 anos e dizer que seu pai estava morto, e ele o fez com uma competência invejável.
"Aconteceu uma coisa ruim, muito triste. Seu pai morreu"..... silêncio....."Tudo bem? Vc está bem?"...silêncio novamente..."Estou"
Lembro-me da sensação de não entender o porque do choro da minha mãe, ela sempre falou tão mal dele... Que tristeza era aquela? Eu não entendia.
Não me senti triste. Coloquei o meu vestido mais bonito, cor de rosa de laise, e fomos para Cravinhos. Eu nunca tinha ido a um velório, foi minha estréia, e confesso senti me como em uma festa. Conheci primos que não conhecia, muito bacanas e simpáticos. Pessoas que eram "famíla", mas completos estranhos pra mim. E uma avó, a grande culpada pelo vício de meu pai.
Mas isso é história para outro post.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O que faz de uma história algo verdadeiro?

A percepção distorce de acordo com quem a conta. Quem não conhece o ditado que diz: "quem conta um conto aumenta um ponto"?
Portanto, mesmo as histórias que julgamos como verdadeiras são em parte inventadas pela nossa forma de perceber o mundo, pelo olhar distorcido que fazemos da realidade, de acordo com as nossas vivências, crenças e carências.

Todas as histórias descritas aqui serão em parte verdadeiras, e em parte inventadas. O leitor nunca terá certeza de qual parte corresponde a que... e isso não é importante.

Relaxe, divirta-se e viaje. Essa aventura está só começando.